Sobre a Diferença entre a Palavra Divina e a Humana

Santo Tomás de Aquino

INTRODUÇÃO

1. Para entender o vocábulo “palavra”, é preciso saber que, como diz Aristóteles, aquilo que é expresso com a voz é signo do que há nas potências da alma.

2. Ora, é usual que na Sagrada Escritura se atribuam os nomes dos signos às realidades significadas, e, reciprocamente, como quando se diz: “A pedra, porém, era Cristo” (I Cor X, 4).

3. Segue-se, pois, necessariamente, que se chame também “palavra” àquilo que está presente interiormente na nossa alma e que exteriormente é significado pela voz mediante a palavra.

4. Não tem a menor importância para esta nossa discussão se o nome “palavra” é mais adequado à realidade exterior, proferida pela voz, ou ao próprio conceito interior da alma. É, no entanto, evidente que o conceito interior na alma precede a palavra proferida vocalmente e é como que sua causa.

5. Se, pois, quisermos saber o que é essa “palavra interior” (o conceito) em nossa alma, examinemos o que significa a palavra proferida exteriormente pela voz.
.
I - A PALAVRA E O INTELECTO

1. Ora, há no nosso intelecto três realidades, a saber:

a) a própria potência do intelecto;

b) a espécie da coisa conhecida, que é a sua forma, e que está para o intelecto assim como a espécie da cor está para a pupila (no caso da visão);

c) a própria operação do intelecto que é a intelecção.

2. Nenhuma destas três realidades, porém, é significada pela palavra proferida exteriormente mediante a voz. Pois uma palavra, digamos, “pedra”, não significa a substância do intelecto, pois não é este o sentido que se imprime a essa palavra. Não significa também a espécie pela qual o intelecto entende (tampouco a isto se dirige a intenção do falante). E também não significa a própria intelecção, pois a intelecção não é um ato que “saia” do sujeito cognoscente, mas permanece nele; ao passo que a “palavra” interior é concebida [1] e se comporta como algo que, por assim dizer, “sai” do sujeito, como se comprova pelo seu signo: a palavra exterior, que, sendo vocalmente proferida, sai do sujeito.

3. Assim, é em sentido próprio que chamamos palavra interior àquilo que o sujeito forma no ato de intelecção. Ora, o intelecto forma duas coisas de acordo com duas de suas operações. Segundo a operação que se chama indivisível forma a definição; e, segundo a operação pela qual afirma ou nega, forma a enunciação ou seus equivalentes. E, assim, aquilo que é formado e expresso pela operação do intelecto, ao definir ou enunciar, é significado pela palavra exterior. Daí que Aristóteles diga (IV. Metaphys): “A ratio significada por um nome é a definição”.

4. Portanto, aquilo que desse modo é formado e expresso na alma é chamado palavra interior e referido ao intelecto não como aquilo pelo que [2] o intelecto entende, mas aquilo no que entende, isto é, nessa palavra interior, expressa e formada, vê a natureza da coisa inteligida.

5. E assim temos o significado de “palavra” [3].

II - CARACTERÍSTICAS DA PALAVRA: FORMADA PELO INTELECTO E RATIO DA COISA

1. Dessas considerações, podemos já extrair duas características da palavra: 1) que ela sempre é algo que procede do intelecto e existe [4] no intelecto; 2) que a palavra sempre [5] é ratio e semelhança da coisa conhecida pelo intelecto.

2. No caso de o mesmo sujeito ser cognoscente e conhecido, a palavra é ratio e semelhança do intelecto de que procede. Se, porém, um é o que conhece, e outro o conhecido, então a palavra não é a ratio do que conhece, mas a ratio da coisa conhecida: tal como o conceito que alguém tem de pedra não passa de semelhança da própria pedra. Mas quando o intelecto se conhece a si mesmo, então tal conceito é ratio e semelhança do próprio intelecto.

3. Daí que Agostinho (De Trin. IX, 5) encontre um modelo da Trindade na alma humana: a mente se conhece a si mesma, não segundo o modo pelo qual conhece a outro. É evidente, pois, que, para o entendimento de qualquer realidade intelectual, o cognoscente tenha de formar a palavra, pois é da própria essência da intelecção que o intelecto forme algo e este algo formado se chama palavra.

III - AS TRÊS PALAVRAS: A DE DEUS, A DO ANJO E A DO HOMEM

1. Ora, sendo três as naturezas intelectuais – a humana, a angélica e a divina –, três são as palavras. Há, assim, uma palavra humana, como se lê no Salmo XIII: “Disse o insensato em seu coração: ‘Não há Deus’ etc.”; há palavra de anjo, como se lê em Zacarias (I, 9): “Disse o anjo etc.”; e há palavra divina: “Disse Deus: faça-se a luz etc.” (Gn I, 5).

2. Quando o evangelista diz “No princípio era o Verbo”, sem dúvida se refere à Palavra divina e não à palavra humana ou angélica, ambas criadas, pois certamente a palavra não pode preceder àquele que a profere (e o homem e o anjo também foram criados: têm causa e princípio em seu ser e em seu agir) [6]. Ora, a Palavra, o Verbo a que João se refere, não só não foi criado, como também “tudo por Ele foi criado”. Trata-se, pois, necessariamente do Verbo divino.

3. Deve-se saber que a Palavra divina difere da nossa em três pontos:

IV - A PRIMEIRA DIFERENÇA ENTRE A PALAVRA DIVINA E A HUMANA

1. A primeira diferença entre a palavra divina e a humana, segundo Agostinho, é que a nossa palavra é antes formável do que formada: pois quando quero conceber a essência [7] de pedra tenho de raciocinar para chegar a ela, e assim também em tudo o que é objeto de nossa intelecção, a não ser, talvez, no caso dos primeiros princípios, que – sendo conhecidos naturalmente sem discurso da razão – são imediatamente conhecidos.

2. Enquanto o intelecto está em processo de discorrer raciocinando, lançado de um lado para o outro, não há formação perfeita até que perfaça o conceito [8] da própria essência do objeto, e é só ao perfazer a ratio da coisa que essa ratio adquire caráter de palavra.

3. Há, pois, em nossa alma, cogitação, isto é, o pensamento que discorre e indaga; e há, além disso, a palavra que já está formada pela perfeita contemplação da verdade, e assim a perfeita contemplação da verdade se diz palavra.

4. A nossa palavra está, pois, em potência antes do que em ato. O Verbo divino, porém, está sempre em ato e assim o termo cogitação não é adequado ao Verbo de Deus. Tal como diz Agostinho (De Trin. III): “Chamamo-Lo Verbo de Deus para excluir a cogitação; para que não se creia que haja em Deus movimento”. E a sentença de Anselmo: “Falar, para o Pai, não é outra coisa que ver pela cogitação”, é uma formulação imprópria.

V - A SEGUNDA DIFERENÇA ENTRE A PALAVRA DIVINA E A HUMANA

1. A segunda diferença entre a nossa palavra e a Palavra divina é que a nossa é imperfeita, enquanto o Verbo divino é perfeitíssimo. E isto porque nós não podemos expressar em uma única palavra tudo o que há em nossa alma, e devemos valer-nos de muitas palavras imperfeitas e, por isso, exprimimos fragmentária e setorialmente tudo o que conhecemos.

2. Já em Deus não é assim: Ele, conhecendo em um único ato a si mesmo e a todas as coisas pela Sua essência, um único Verbo divino expressa tudo que é em Deus: não só o que se refere ao Pai, mas também às criaturas, pois, em caso contrário, seria imperfeito. Daí que Agostinho diga: “Se houvesse menos no Verbo do que no conhecimento dO que O profere, o Verbo seria imperfeito”. Mas é certo que o Verbo divino é perfeitíssimo e, portanto, único, daí que se leia em Jó (XXXIII, 14): “Uma só vez fala Deus”.

VI - A TERCEIRA DIFERENÇA ENTRE A PALAVRA DIVINA E A HUMANA

1. A terceira diferença está em que a nossa palavra não constitui uma única natureza conosco, enquanto o Verbo divino constitui uma mesma natureza com Deus e subsiste na natureza divina. Pois a ratio intelectiva que nosso intelecto forma de algo só tem ser na alma intelectiva; pois o conhecer intelectualmente não se identifica com a própria alma, já que a alma não é a sua operação. E, assim, o termo que o nosso intelecto forma não é da essência da alma, mas apenas seu acidente.

2. Já em Deus entender e ser é o mesmo, e, assim, o Verbo formado pelo intelecto divino não é algo acidental, mas de Sua natureza: daí que necessariamente seja subsistente, já que tudo que é na natureza de Deus é Deus. Daí que João Damasceno afirme que “o Verbo de Deus é subsistente, existe em Pessoa; enquanto as outras palavras (as humanas) não são senão produtos da alma”.

VII - CONCLUSÕES

1. Do que acima dissemos, segue-se que, em Teologia, propriamente falando, em se tratando de Deus, o Verbo sempre se diz pessoalmente, quando não se referir senão aO que é expresso pelO que entende.

2. É evidente também que o Verbo divino é semelhança dAquele de quem procede e é-Lhe co-eterno, porque não foi formável antes de ser formado, mas é sempre em ato. E, sendo perfeito e expressivo da plenitude do ser do Pai, é igual ao Pai; e, sendo subsistente na natureza do Pai, é-Lhe co-essencial e consubstancial.

3. É evidente ainda que, em qualquer natureza, aquele que procede, guardando a semelhança e a natureza daquele de quem procede, chame-se filho. É o caso do Verbo, que em Deus é chamado Filho e sua produção denominada geração.

____________

Notas

[1] No original latino, verbum interius conceptum. O caráter de particípio da palavra conceito ("concebido") torna transparente o fato de que o conceito é "concebido", fruto de uma concepção como palavra interior.

[2] Trata-se aqui da espécie impressa.

[3] Esta frase só se encontra na Exposição sobre o Evangelho de João.

[4] Evidentemente, a palavra, mesmo ao ser proferida, não perde sua existência no intelecto. Isto terá sua importância no caso da Encarnação do Verbo divino, que embora tenha sido "proferido", quando "se fez carne e habitou entre nós", permaneceu junto ao Pai.

[5] Esta palavra, "sempre", só se encontra na Exposição sobre o Evangelho de João.

[6] O que está entre parênteses só se encontra na Exposição sobre o Evangelho de João.

[7] No orig.: rationem

[8] No orig.: rationem