Somente a Igreja
Católica pode interpretar corretamente a Sagrada Escritura. O Livro Sagrado é
de difícil compreensão, o qual necessita de uma inspirada interpretação, porque
in claris, non est interpretatio – o
que é claro, não permite interpretação. Logo, a Sagrada Escritura, por não ser
clara em si, necessita de interpretação, e por ser um Livro Sagrado que foi
escrito inspirado pelo Espírito Santo, requer que sua interpretação também seja
necessariamente inspirada pelo mesmo Espírito. Se foi o Espírito Santo quem
escreveu pelas mãos do homem, é o Espírito Santo quem deve interpretar o que
escreveu pela boca do homem. De certa forma que os homens que escreveram e
interpretaram os Livros Sagrados foram somente – e nada mais – instrumentos do
Espírito Santo.
Antes de tudo, é
preciso saber que o mesmo Espírito acompanha a Igreja desde Pentecostes, e
assim continuará até a consumação dos séculos. São Lucas, nos Atos dos
Apóstolos, relata a descida do Espírito Santo sobre os doze e sobre a Virgem
Santíssima. Era o dia final da Festa da Colheita [1], e “estavam então
residindo em Jerusalém Judeus, homens religiosos de todas as nações que há
debaixo do céu” [2]. Era o quinquagésimo dia depois da Páscoa, quando o
Paráclito desceu sobre os doze apóstolos e Nossa Senhora [3], para que se
cumprisse a promessa de Cristo: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro
Consolador, para que fique eternamente convosco” [4].
Com isso, pode-se
questionar: por que o Espírito Santo desceu somente sobre os doze apóstolos e a
Virgem Maria, enquanto Jerusalém estava repleta de homens de todas as partes do
mundo?
A este questionamento, o próprio Salvador responde, quando fala a seus apóstolos: “o Espírito Santo de verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conhecereis, porque habitará convosco, e estará entre vós” [5].
Nada mais esclarecedor
que as palavras do próprio Cristo.
E Nosso Senhor
continua, dizendo: “Eu disse-vos estas coisas, permanecendo convosco. Mas o
Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos
ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito” [6].
São Paulo, enquanto
prisioneiro em Roma, escreve aos Efésios:
“Há um só corpo e um só
Espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa
vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de
todos, que está acua de todos e (opera) por todas as coisas, e (reside) em
todos nós” [7].
Para que haja uma só
fé, é preciso que haja apenas uma interpretação da Sagrada Escritura, que é a
legítima, a inspirada pelo Espírito Santo e ensinada pela Igreja em seu
Magistério. Com isso, todas as interpretações da Bíblia que não estão submissas
à Igreja são falsas, e é contra essas falácias que o Apóstolo nos adverte “para
que não mais sejamos meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo o vento da
doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”
[8]; “porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina, mas
multiplicarão para si mestres conforme os seus desejos, (levados) pelo prurido
de ouvir. E afastarão os ouvidos da verdade, e os aplicarão às fábulas” [9].
São João também nos
previne: “Caríssimos, não queirais crer em todo o espírito, mas examinai os
espíritos (para ver) se são de Deus; porque muitos falsos profetas vieram para
o mundo” [10].
E para confirmar que
pela boca dos apóstolos seria pregada a Sua Palavra, “quis o próprio Cristo
atribuir tanta autoridade ao magistério de seus ministros, que chegou a
declarar: ‘Quem vos ouve, a Mim é que ouve; e quem vos despreza, a Mim é que
despreza’.” [11].
Ficam claros, então,
dois pontos:
1 – O Espírito Santo
não inspira para o livre exame da Sagrada Escritura.
2 – A legítima
interpretação da Bíblia é recebida somente dos Apóstolos e seus sucessores.
Em relação a esses dois
pontos, São Pedro, o primeiro Papa da Igreja, escreve:
“Nenhuma profecia da
Escritura é de interpretação particular. Porque a profecia nunca foi dada pela
vontade dos homens, mas os homens santos de Deus (é que) falaram inspirados
pelo Espírito Santo” [12].
Para mais se
esclarecer, São Paulo escreve aos Gálatas para confirmar que somente pela boca
dos apóstolos se dará a comunicação da Palavra de Cristo, quando proclama a
condenação: “Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um
Evangelho diferente daquele que vos tenho anunciado, seja anátema” [13].
Por tudo isso, não nos
deixemos levar pelas falácias dos falsos profetas, dos quais Nosso Senhor já
nos preveniu. “Evidentemente que não há outro (Evangelho diferente do que eu
vos preguei), mas há alguns que vos perturbam e querem inverter o Evangelho de
Cristo” [14], diz o Apóstolo.
Juntemo-nos com a
Rocha, que é Pedro, ao qual Cristo outorgou as Chaves do Reino dos Céus, e
sobre o qual fundou a sua única Igreja [15], que permanece firme até hoje com o
Beatíssimo Papa reinante, e com os Apóstolos (os Bispos); e unidos a Eles, como
membros do Corpo Místico de Cristo, possamos conhecer os sublimes ensinamentos
que o Magistério ordinário e infalível da Igreja nos comunica, repetindo o que
Ela sempre ensinou desde os apóstolos.
“Com fé divina e
católica deve ser crido tudo o que está contido na palavra de Deus – escrita,
ou conservada pela Tradição – e que, por juízo solene ou magistério ordinário e
universal, a Igreja propõe como divinamente revelado” [16].
Por outro lado,
neguemos e condenemos a qualquer novidade que se imponha contra o infalível
Magistério, seja ela ensinada pelos inimigos externos ou internos da Igreja,
porque, novamente citando as palavras do Apóstolo, “ainda que nós mesmos ou um
anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos tenho anunciado,
seja anátema” [17].
Por fim, nos empenhemos
em estudar, dentro dos nossos limites, a Sagrada Escritura – porque “se há
coisa neste mundo que sustenha o sábio e o convença a permanecer de ânimo
sereno em meio das tribulações e tempestades do mundo, penso que é em primeiro
lugar a meditação e ciência das Escrituras” [18] –, sempre submetendo-nos à
autoridade da Santa Igreja – porque “deve-se ter por verdadeiro sentido da
Sagrada Escritura aquele que foi e é mantido pela Santa Madre Igreja, a quem
compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação da Sagrada Escritura;
e que, por conseguinte, a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada
Escritura contrariamente a este sentido ou também contra o consenso unânime dos
Santos Padres” [19] –, que inspirada pelo Espírito Santo, nos ensina como
Mestra da Verdade, porque como houve um só Mestre Divino para revelar os
Mistérios Divinos, assim também há uma só Mestra que interpreta os Divinos
Ensinamentos necessários à nossa salvação.
Em Cristo e Maria,
Carlos Wolkartt.
_______
Notas
[1] Cf. Atos II, 1.
[2] Atos II, 5.
[3] Cf. Atos II, 2-4.
[4] Jo. XIV, 16.
[5] Jo. XIV, 17.
[6] Jo. XIV, 25-26.
[7] Ef. IV, 4-6.
[8] Ef. IV, 14.
[9] II Tim. IV, 3-4.
[10] 1 Jo. IV, 1.
[11] Catechismus ex
decreto Concilii Tridentini ad Parochos Pii Quinti Pont. Max. iussu editus ad
editionem Romae A. D. MDLXVI publici iuris factam accuratissime expressus;
Proêmio 4.
[12] 2 Pd. II, 20-21.
[13] Gálatas I, 8.
[14] Gálatas I, 7.
[15] Cf. Mat. XVI, 18.
[16] Denz, 1792.
[17] Vide Nota 13.
[18] São Jerônimo, in
Ephesios, prologus, PL 26, 439. Apud. Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu,
Pio PP. XII, sobre os estudos bíblicos, 30 de setembro de 1943.
[19] Primeiro Concílio
do Vaticano, Sessão III - Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, Cap. II,
1788.
