Deus castiga?

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Aquele que ama a correção, ama a ciência,
mas o que detesta a reprimenda é um insensato
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(Prov. 12, 1)


Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Uma das tolices mais irritantes que se ouvem hoje em diversos ambientes pentecostais e progressistas é que Deus não castiga porque Deus é amor. Que coisa mais bonita! Que coisa mais melosa! Que coisa mais cretina!

Outra coisa ridícula e estulta que se ouve com freqüência, vinda dos arraiais progressistas, é que o Deus do Antigo Testamento é um Deus diferente do Novo Testamento.

O mistério de Deus excede a razão humana, mas não a contradiz. Quando crê em Deus, o homem não descarta o uso da razão; pelo contrário, esta lhe diz que é razoável crer, que há motivos para crer. A fé é uma luz que aperfeiçoa a razão. Ademais, seja dito de passagem, a existência de Deus não é artigo de fé, mas dado da razão. Se alguém não alcança a Deus pela razão, nada  impede que nele creia movido pela graça e tocado ao menos por argumentos de conveniência.

Basta usar um pouco a inteligência para concluir que não tem cabimento afirmar a existência de Deus criador do homem livre e racional, dotado de alma espiritual e imortal e, ao mesmo tempo, dizer que Deus não pune ninguém.

Como ensina a Dogmática, o conhecimento que temos de Deus é um conhecimento analógico. Quer dizer, por comparação com as obras criadas, podemos conhecer a Deus e seus atributos, não em sua forma própria, mas de forma estranha, tal como moldada nas criaturas. (Cf. BARTMANN, Teologia Dogmática, v. p. 146, São Paulo, 1962). Isto nos permite evitar tanto o erro do antropomorfismo * quanto uma total desantropomorfização incompatível com o dado da revelação e o mistério da Encarnação do Verbo.

Pois bem, se Deus é pai e todo pai bom e educador castiga e corrige seus filhos para o seu bem, como não castigará Deus o homem, seu filho, para seu bem e salvação? A Sagrada Escritura contém várias passagens com essa doutrina. Por exemplo, o Apóstolo São Paulo, citando Provérbios, diz na Epístola aos Hebreus: "Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho" (Prov. 3, 11s.).

Por outro lado, cumpre lembrar o que diz Santo Tomás em seu comentário à Epístola de São Paulo aos Romanos. Explicando as maldições que há na Sagrada Escritura, diz o Angélico que se devem julgar as coisas não segundo a sua matéria, mas segundo sua forma (Cf. Super Epistolas, Ad Romanos, c. XII, lectio III). De modo que se pode dizer que o mal, enquanto castigo, não tem razão de mal mas de bem.

Do esquecimento dessa verdade decorre hoje uma nova religiosidade que quer um cristianismo sem cruz, sem sofrimento. É por isso que se vê tanto abuso na pratica das chamadas missas de "cura e libertação". Já não se aceita o sofrimento como uma prova permitida ou querida por Deus, mas sempre como um mal vindo do diabo.

Hoje há uma verdadeira heresia em torno da revelação cristã de que Deus é amor. O amor pressupõe a inteligência que ilumina a vontade com o bem a ser amado. Deus ama porque antes é razão. Deus cria livremente, porque antes é inteligente. Ama tudo aquilo que criou com medida, número e peso (Sab. 11, 21). Sua obra, antes de ser reflexo da sua bondade, é reflexo da sua inteligência. Na mente divina existe, desde toda eternidade, o projeto da criação, que tem início no tempo, como manifestação da sua bondade e onipotência. E seu amor – também nos ensina a teologia dogmática – não é expressão da sua vontade, mas do seu ser.

A criação divina constitui uma ordem. Essa ordem expressa, sobretudo, inteligência e sabedoria. Opondo-se a todo bom senso, a filosofia voluntarista  nega a inteligência anterior à vontade em Deus, o que tem conseqüências desastrosas em vários campos.

Na perspectiva voluntarista, como todas as coisas dependem exclusivamente da vontade divina sem nexo com a sua inteligência, não só as ações humanas tendem a ser arbitrárias, mas também a própria idéia que se faz do juízo divino é uma idéia ilusória, reduzindo-se a um juízo destituído de qualquer elemento racional. Deus poderia fazer um Decálogo ao contrário e seria bom, porque procedente da sua vontade. Ora amor sem razão é um absurdo.

Os frutos amargos de todas essas distorções teológicas são perceptíveis. Um deles, parece-me, é a decadência da atual educação. A educação – ou deseducação – que se dá hoje às crianças e aos jovens, é uma satisfação de caprichos da vontade ou vaidade dos pais e dos filhos. Não visa mais à perfeição e aquisição das virtudes conforme o conhecimento da verdade.

O deus caprichoso, que muda de feição do Antigo para o Novo Testamento, da dureza para a moleza, de acordo com a nova exegese pentecostal, inspira o relaxamento da nova educação.

Não é em vão que a Igreja tradicionalmente procurou guiar e mediar a leitura da Sagrada Escritura para evitar erros e subjetivismos na sua interpretação. Não são dois deuses opostos o do Antigo e do Novo Testamento. Mas o mesmo Deus, eterno e imutável que no tempo age como um pai ou pedagogo, adaptando-se às condições dos seus filhos. Nosso Senhor não veio abolir a lei mas completá-la e aperfeiçoá-la, o que significa torná-la ainda mais rigorosa: "Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher já adulterou com ela em seu coração" (Mt. 5, 27-29).

Como bem observa Santo Agostinho, o Antigo Testamento não ameaça com a pena eterna do inferno, mas o Novo Testamento a comina em várias passagens: "Nosso Senhor Jesus Cristo quis que fosse mais suave a disciplina uma vez revelado o Novo Testamento. Todavia, é mais atroz a ameaça do inferno, a qual não lemos entre as ameaças de Deus no governo daqueles tempos" (Super Psalmos, Ps. 105). Quando diz que a disciplina do Novo Testamento é mais suave, o santo doutor refere-se ao conteúdo do salmo 105 que recorda os castigos temporais impostos ao povo hebreu por causa da sua rebeldia e murmuração.

Resumindo essa doutrina em termos teológicos precisos, diz Renié, em seu Manuel d'Ecriture Sainte: "Sem dúvida, a lei mosaica é inferior à lei evangélica: é que Deus, como um sábio pedagogo, conduziu a humanidade indo do menos perfeito ao mais perfeito. Jesus não ab-rogará a lei de Moisés, transforma-la-á, aperfeiçoa-la-á (Mt. 5, 17). Se por si mesma a lei do Sinai não produzia a graça na alma e só conferia uma purificação exterior, ela contribuía no entanto para a justificação e por seus ritos expressivos reavivava a fé no Messias, de quem vinha a salvação verdadeira (...). Quanto à sua excelência, ela resulta da sua própria perenidade, porquanto ela está ainda na base das nossas civilizações modernas" (Renié, Emmanuel Vitte, Paris, 1941).

Para remate dessas reflexões, diria apenas que uma das providências urgentes a serem tomadas para impedir dissolução da doutrina sagrada, a redução do catolicismo à religião sem dogmas, a um vago, indefinido (e cretino) sentimento de amor é, sem dúvida, a Igreja voltar a ser mais vigilante sobre a leitura da Sagrada Escritura. Esta tem de ser precedida por criterioso estudo do catecismo, mediada pela tradição, pelo magistério e pela liturgia da Igreja. Tudo isto implica uma série de medidas concretas. A reforma litúrgica, inflacionando a leitura de textos bíblicos nas missas, inclusive com passagens de difícil interpretação, criou uma situação embaraçosa segundo análise do erudito cardeal Stickler. Aguçou um interesse entre os leigos, para não dizer uma curiosidade, pelas Sagradas Escrituras, que envolve perigos graves para a integridade da fé católica. Além disso, há um incontestável despreparo do clero formado após o Vaticano II – prejudicado pela degradação dos estudos na maioria dos seminários – para explicar aos fiéis as passagens da Sagrada Escritura lidas na santa Missa. Se por um lado a reforma litúrgica multiplicou o número de leituras bíblicas, por outro lado censurou os chamados salmos imprecatórios, explanados de forma admirável por Santo Agostinho. Como se sabe, referidos salmos em linguagem contundente profetizam terríveis desgraças que cairão sobre o pecador impenitente como se fossem votos. Empregados na liturgia tradicional, seja na missa na forma de intróito ou no breviário como antífona, esses salmos recordam ao cristão a justiça divina. Certamente, não foi inócua sua supressão. Lex orandi, lex credendi. Se uma verdade de fé deixa de ser exposta pela liturgia, com o tempo será negada ou esquecida. Por exemplo, a tradução mutilada do cânon romano, suprimindo a expressão "eterna danação" é uma das causas de hoje ser negado o inferno. Não é à toa que o cardeal Ratzinger disse que a reforma litúrgica é uma das causas da crise da Igreja em nossos dias.

Anápolis, 28 de outubro de 2008
Festa de São Simão e São Judas Tadeu, Apóstolos


* Antropomorfismo é uma forma de pensamento que atribui características ou aspectos humanos a Deus.

Notificação concernente às mulheres que vestem roupas de homem [1]

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Ao Reverendo Clero,
A todas as Religiosas professoras
Aos queridos filhos da Ação Católica,
Aos educadores que desejam seguir verdadeiramente a Doutrina Cristã [2]

I. O primeiro sinal da nossa primavera tardia indica certo aumento, este ano, do uso das vestes masculinas por mulheres, jovens e até mesmo por mães de família. Até 1959, em Genova, este tipo de veste significava que a pessoa era uma turista, mas agora parece que há um número significativo de garotas e mulheres da mesma Genova que escolhem, ao menos em viagens de lazer, vestir calças de homem.

A evolução deste comportamento nos obriga a refletir seriamente, e nós pedimos a quem esta notificação vai dirigida dar toda a atenção que este problema merece, como é próprio das pessoas que estão conscientes de ser responsáveis frente a Deus.

Nós pretendemos acima de tudo fazer um juízo moral equilibrado sobre o uso de roupas masculinas pelas mulheres. De fato nossa reflexão só pode estar fundamentada sobre a questão moral [3].

Em primeiro lugar, quando a questão é cobrir o corpo feminino, não se pode dizer que o uso de roupas masculinas pelas mulheres seja uma grave ofensa contra a modéstia, pois as calças certamente cobrem mais do corpo da mulher que as saias das mulheres modernas.

No entanto, as vestes para serem modestas não necessitam apenas cobrir o corpo, e tampouco devem estar coladas ao corpo [4]. É verdade que muitas roupas femininas colam mais do que muitas calças, mas as calças podem ser feitas para apertarem mais, e de fato geralmente apertam. Por isso, este tipo de roupa, colada ao corpo, nos dão a mesma preocupação quanto às roupas que expõem o corpo. Então a imodéstia das calças masculinas no corpo feminino é um aspecto do problema que não pode ser deixado sem uma observação geral sobre elas, ainda que não deva ser superficialmente exagerado também.

II. No entanto, outro aspecto das mulheres vestindo calças nos parece ser o mais grave [5]. O uso de vestes masculinas por parte das mulheres afeta primeiramente à própria mulher, causado pela mudança da psicologia feminina própria da mulher; em segundo lugar afeta a mulher como esposa do seu marido, por tender a viciar a relação entres os sexos; e em terceiro lugar como mãe de suas crianças, ferindo sua dignidade ante seus olhos. Cada um destes pontos deverá ser cuidadosamente considerado:

A. A Roupa Masculina Muda a Psicologia da Mulher

Na verdade, o motivo que leva a mulher a usar roupa de homem é o de imitar, e não somente isso, mas o de competir com o homem, que é considerado o mais forte, mais livre, mais independente. Esta motivação mostra claramente que a roupa masculina é a ajuda visível para trazer uma atitude mental de ser "igual ao homem" [6]. Em segundo lugar, desde que o ser humano existe, a roupa que uma pessoa usa modifica seus gestos, atitudes e o comportamento, a tal ponto que só pelo fato de se usar uma determinada roupa, o vestir chega a impor um estado de ânimo especial em seu interior.

Permita-nos acrescentar que, uma mulher que sempre veste roupas de homem, indica que ela está reagindo à sua feminilidade como se fosse algo inferior, quando na verdade é só diversidade. A perversão de sua psicologia é claramente evidente. [7]

Estas razões, somadas com muitas outras, são suficientes para nos alertar o quão equivocado elas são conduzidas a pensar ao se vestir com roupas de homens.

B. A Roupa Masculina Tende a Corromper as Relações entre as Mulheres e os Homens

Na verdade, com o passar dos anos e conforme as relações entre os sexos se desenvolvem, um instinto mútuo de atração predomina. A base essencial desta atração é a diversidade entre os sexos, que é possível somente pela sua complementaridade ou completando um ao outro. Se esta "diversidade" se torna menos óbvia porque um de seus maiores sinais externos é eliminado, e porque a estrutura psicológica normal é enfraquecida, o que resulta é a alteração de um fator fundamental na relação.

O problema é ainda mais profundo. A atração mútua entre os sexos é precedida tanto naturalmente, quanto em relação ao tempo, por um sentido de pudor que freia os instintos que surgem, lhes impõe respeito, e tende a elevar o nível de mútua estima e temor saudável, impedindo que todos aqueles instintos possam levar a atos descontrolados. Mudar a roupa, que por sua diversidade revela e assegura os limites da natureza e da defesa, é anular a distinção e ajudar a destruir o trabalho de defesa vital do sentido de vergonha.

É, no mínimo, impedir este sentido. E quando o sentido de vergonha é impedido de colocar os freios, as relações entre homem e mulher se afundam em degradação e puro sensualismo, separadas de todo respeito mútuo ou estima.

A experiência esta aí para nos dizer que quando a mulher é desfeminilizada, as defesas são destruídas e as fraquezas aumentadas. [8]

C. A Roupa Masculina Fere a Dignidade da Mãe ante os olhos de Suas Crianças

Toda criança têm um instinto pelo sentido de dignidade e decoro de sua mãe. Uma análise da primeira crise interior das crianças, quando elas despertam para a vida ao seu redor, mesmo antes delas entrarem na adolescência, mostra o quanto vale para elas o sentido de suas mães. As crianças são sumamente sensíveis a esta idade. Os adultos geralmente deixaram isso de lado e não pensam mais sobre isso. Mas fazemos bem em recordar as demandas severas que as crianças instintivamente fazem a sua própria mãe, e a profundas e até terríveis reações que nelas se afloram pela observação dos seus maus comportamentos. Grande parte do futuro é traçada aqui – e não para melhor – nestes precoces dramas durante a infância.

A criança pode não saber a definição de exposição, de frivolidade ou infidelidade, mas possui um sentido instintivo que reconhece quando essas coisas acontecem, sofre com elas, e é amargamente ferida por elas em suas almas.

III. Vamos pensar seriamente em tudo o que foi dito até agora, mesmo que a aparência da mulher com roupas masculinas não faça surgir imediatamente tudo aquilo causado por uma grave imodéstia.

A mudança da psicologia feminina gera um dano crucial e, ao longo dos anos, torna-se irreparável à família, à fidelidade conjugal, às afeições e à sociedade humana [9]. É verdade que os resultados de se vestir roupas impróprias não podem ser vistos todos a curto prazo. Mas devemos pensar no que está sendo devagar e articuladamente destruído, despedaçado, pervertido.

Se a psicologia feminina é mudada, existe alguma reciprocidade imaginável mudada entre marido e mulher? Ou, existe alguma autêntica educação de crianças imaginável, que é tão delicada no seu proceder, entrelaçada de fatores imponderáveis, na qual a intuição e instinto da mãe cumpram um papel decisivo nessa idade tão delicada? O que estas mulheres serão capazes de dar a suas crianças, tendo usado calças durante tanto tempo e com sua alta-estima determinada mais por sua competição com os homens do que por seu papel como mulher?

Perguntamo-nos porque, desde que o homem existe – ou melhor, desde que ele se tornou civilizado: por quê tem sido o homem, em todos os tempos e lugares, irresistivelmente levado a fazer a diferenciada divisão entre as funções dos dois sexos? Não temos aqui um testemunho exato para o reconhecimento, por toda a humanidade, de uma verdade e de uma lei acima do homem?

Para resumir, quando uma mulher veste roupas de homem, deve ser considerado um fator, a longo prazo, da desintegração da ordem humana.

IV. A consequência lógica de tudo o que foi apresentado aqui é que qualquer pessoa, em uma posição de responsabilidade, deveria estar possuída por um sentido de alarme no significado verdadeiro e próprio da palavra, um severo e decisivo alarme [10].

Nós dirigimos uma grave advertência aos sacerdotes das paróquias, a todos os sacerdotes em geral e a confessores em particular, aos membros de qualquer tipo de associação, a todos os religiosos, a todas as irmãs, especialmente as irmãs educadoras.

Nós os convidamos a que tomem plena consciência deste problema de forma que atuem em seguida. Essa conscientização é o que importa. Ela irá sugerir a ação adequada no tempo certo. Mas não permitamos que nos aconselhe a ceder ante uma inevitável mudança, como se estivéssemos confrontados por uma evolução natural da humanidade, e daí por diante!

Pessoas vêm e vão, porque Deus deixou espaço suficiente para o início e fim do livre arbítrio do homem. No entanto, as linhas essenciais da natureza e as não menos substanciais linhas da Eterna Lei, nunca mudaram, não estão mudando agora e nunca irão mudar. Existem limites além dos quais uma pessoa pode ir tão longe o quanto queira, mas fazê-lo resulta em morte [11]; há limites os quais fantasias filosóficas vazias menosprezam ou não levam a sério, mas que constituem uma aliança de fatos sólidos e da natureza que punem qualquer um que os ultrapassa. E a história já ensinou suficientemente – com assustadoras provas advindas da vida e da morte de nações –, que a conseqüência para todos os violadores deste esquema da "humanidade" é sempre, mais cedo ou mais tarde, uma catástrofe.

A partir da dialética de Hegel em diante, nós temos escutado repetitivamente coisas que não passam de fábulas, e pela força de escutá-las tão freqüentemente, muitas pessoas acabam por se acostumar a elas, mesmo escutando passivamente. Mas a verdade da questão é que Natureza e Verdade, e a Lei baseada em ambas, vão por seu caminho imperturbável, e destroem aos pedaços a idéia dos tolos que, sem justificativa alguma, crêem em mudanças radicais e de longo alcance nessa mesma estrutura do homem. [12]

As consequências de tais violações não são um novo desenho do homem, mas desordens, instabilidades prejudiciais de todos os tipos, a assustadora secura das almas humanas, o grande aumento no número de seres humanos abandonados, levados há muito tempo para longe da vista e da mente humana para viver seu declínio no ócio, na tristeza e na rejeição. Neste naufrágio de eternas regras se encontram famílias destruídas, vidas terminadas antes da hora, corações e casas que se esfriaram, idosos jogados para um lado, jovens intencionalmente depravados e, em última instância, almas em desespero tirando suas próprias vidas. Todas estas ruínas humanas dão testemunho do fato de que a "linha de Deus" não dá espaço, nem admite qualquer adaptação com os sonhos delirantes dos assim chamados filósofos! [13]

V. Já temos dito que aqueles que se dirigem esta Notificação são convidados a tomar o problema que tem adiante como um sério alarme. Eles sabem que devem dizer, começando com os bebês no colo de suas mães.

Eles sabem que sem exagerar ou tornar-se fanáticas, elas precisarão limitar estritamente o quanto elas podem tolerar que as mulheres se vistam como homens com uma regra geral.

Eles sabem que não podem ser tão fracas a ponto de deixar qualquer um fechar os olhos para um costume que está tomando conta e destruindo a base moral de todas as instituições.

Os sacerdotes sabem da direção que devem ter no confessionário, mesmo não tomando toda veste masculina usada por mulher como uma falta grave, devem ser precisos e decisivos. [14]

Todos caridosamente refletirão sobre a necessidade de ter uma frente de ação unida, reforçado por todos os lados, por todos os homens de boa vontade e todas as mentes iluminadas, de forma a criar uma barreira verdadeira para conter a inundação.

Cada um de vocês responsável pelas almas em qualquer situação entende o quão útil é ter como aliados nesta campanha defensiva homens intelectuais e da mídia aliados nesta campanha. A posição tomada pelas indústrias desenhistas de roupa, seus brilhantes estilistas tem uma importância crucial em toda essa questão. O sentido artístico, a elegância e o bom gosto juntos podem encontrar uma solução apropriada e digna para a roupa que a mulher deve usar quando for andar de moto, ou estiver nessa ou naquela atividade física, ou no trabalho. O que importa é preservar a modéstia, junto com o eterno sentido de feminilidade, aquela feminilidade que, mais do que qualquer outra coisa, todas as crianças continuarão a associar com a face de sua mãe. [15]

Nós não negamos que a vida moderna traga problemas e faça requerimentos desconhecidos por nossos avós. Mas afirmamos que existem valores que precisam ser mais protegidos do que experiências passageiras, e que, para todas as pessoas inteligentes, há sempre bom senso e bom gosto o bastante para encontrar soluções dignas e aceitáveis para os problemas que surjam.

Comovidos pela caridade, nós estamos lutando contra uma degradação do homem, contra o ataque sobre aquelas diferenças nas quais descansa a complementaridade entre o homem e a mulher.

Quando vemos uma mulher de calça, nós deveríamos pensar não tanto nela, mas em toda a humanidade, de como será quando todas as mulheres se masculinizem. Ninguém ganhará ao tratar de levar a cabo uma futura época imprecisão, ambigüidade, imperfeição e, em uma palavra, monstruosidades [16].

Esta nossa carta não é dirigida ao público, mas àqueles responsáveis pelas almas, pela educação, por Associações Católicas. Que façam seu dever, e que não sejam como sentinelas que foram apanhadas dormindo no seu posto enquanto o mal penetrava sorrateiramente.

Giuseppe Cardinal Siri
Arcebispo de Genova
12 Junho de 1960



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[1] A tradução da Nota do Cardeal foi feita por Daniel Pinheiro e Julie Maria da Nota em inglês, que aparece como anexo do livro “Dressing with Dignity”, de Colleen Hammond, Editora TAN. Todas as notas abaixo foram escritas pelo tradutor original, Sr. Williamson.
[2] No final da Nota do Cardeal, ele explica que ela não é dirigida ao público em geral, mas apenas indiretamente, através dos líderes católicos citados acima. No entanto, isso foi em 1960, quando a Igreja ainda tinha um quadro de líderes. Em 1977, aqueles capazes de responder, por sua Fé, à instrução do Cardeal estão dispersos entre o grande público, aos quais sua instrução é adequadamente difundida.
[3] O Cardeal elimina muitas objeções quando ele nos recorda desde qual ponto de vista ele nos falará: como um mestre de Fé e moral. Quem pode negar com razoabilidade que a roupa (especialmente a feminina, mas não só ela) envolve a moral e por isso a salvação das almas?
[4] Calça jeans são praticamente universais. Quantos jeans para a mulher não são apertados?
[5] Calças são piores que mini-saias, disse o Bispo de Castro Mayer, porque enquanto as mini-saias atacam os sentidos, as calças atacam a mais alta faculdade do homem, a mente. O Cardeal Siri explica em profundidade o por quê disso.
[6] Quando a mulher deseja ser igual ao homem (as feministas têm mais desdenho da feminilidade que qualquer um, disse alguém), resta ao homem fazer a mulher ser orgulhar de ser mulher.
[7] O enorme aumento, desde 1960, na prática e na exibição pública de vícios contra a natureza deve ser certamente atribuído em parte pela perversão desta psicologia.
[8] Quando uma mulher é feminina, ela tem a força que Deus lhe deu. Quando ela é desfeminilizada, ela só tem a força que ela dá a si mesma.
[9] Para um exemplo deste dano, veja a relação entre os sexos tal como é mostrada no Rock, por exemplo, como através da letra inclusa, The Wall, músicas 6, 9, 10, 11.
[10] Em 1997 (e em 2009, acrescentamos hoje*) podemos dizer que o Cardeal estava exagerando?
[11] Toda grande obra e literatura é testemunha desta estrutura moral do universo, que se viola à custa de grandes danos, e que faz parte da ordem natural como sua mesma estrutura física. Os poemas de Shakespeare são exemplos famosos. O Cardeal aqui está no cerne da questão.
[12] Tem-se dito, Deus perdoa sempre, o homem algumas vezes, a natureza nunca.
[13] O Cardeal não está apenas se permitindo uma retórica. Para um exemplo de “ruínas humanas” veja a versão resumida da miséria de Pink Floyd na letra inclusa. (Não está inclusa aqui – Webmaster).
[14] Quanta sabedoria e quanto equilíbrio em todas estas conclusões aparentemente severas!
[15] Em outras palavras, a feminilidade da mãe, não de Eva.
[16] Em 1997 todos vemos ao nosso redor a era de monstruosidade, a qual em 1960 o Cardeal estava fazendo seu melhor para prevenir. No próprio país do Cardeal, a Itália, a taxa de natalidade tem sido a menor da Europa! O Cardeal não foi ouvido por eles. Será ele ouvido agora? Pink Floyd tem o problema. O Cardeal Siri tem a resposta.
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É certo comungar em pecado?


São Padre Pio de Pietrelcina nos ensinava: “Ninguém se senta à mesa para ceiar estando sujo e emporcalhado; do mesmo modo, ninguém se aproxima da mesa da Comunhão sem antes lavar-se no confessionário”.

A Igreja desde sempre advertiu seus filhos sobre a responsabilidade de receber dignamente – em estado de graça – o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Já o Apóstolo ensinava que “todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor XI, 27).

Ser indigno de receber a Sagrada Comunhão é o estado no qual a pessoa carrega o peso do pecado mortal. Esse tipo de pecado é cometido quando, com uso da razão e por vontade própria, o indivíduo viola a lei de Deus (peccata contra legem Dei) e/ou da Igreja (peccata contra legem Ecclesiae) em matéria grave. Entende-se por peccata contra legem Dei aqueles que infringem os dez mandamentos, enquanto que os peccata contra legem Ecclesiae são os que transgridem as determinações infalíveis da Igreja, como por exemplo os dogmas. São também pecados mortais os que são cometidos contra naturam (contra a natureza), como o homossexualismo e a pederastia.

Sábado: dia propício a consagrar-nos à Virgem Mãe de Deus

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Ato de Consagração à Imaculada Virgem Maria
Por São Maximiliano Maria Kolbe

Ó Imaculada,
Rainha do Céu e da Terra,
Refugio dos pecadores e Nossa Mãe amantíssima,
a quem Deus quis confiar toda a Ordem da misericórdia!
Eu (nome), indigno pecador,
me prostro aos vossos pés suplicando-vos com insistência:
Dignai aceitai-me por completo, como coisa e propriedade vossa.

Fazei o que quiserdes de mim,
De todas as faculdades da minha alma e do meu corpo,
De toda a minha vida, da minha morte, da minha eternidade.

Disponha de mim totalmente, como lhe agradar,
para que se cumpra o que está dito de vós:
"Ela esmagará a cabeça da serpente", e também:
"Só vós destruístes todas as heresias no mundo inteiro".
Que em vossas mãos Imaculadas e misericordiosíssimas
eu seja um instrumento que vos serve a introduzir
e a aumentar o mais possível de vossa glória em tantas almas desgarradas e tíbias.

Assim se estenderá cada vez mais o Reino Bendito do Santíssimo Coração de Jesus.
Pois onde entrais, conseguis a graça da conversão e santificação,
já que é do Sacratíssimo Coração de Jesus, que
todas as graças chegam para nós por vossas mãos.

V.: Dai-me a graça de vos louvar ó Virgem Santíssima.
R.: Dai-me força contra vossos inimigos.
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A oração da paz que São Francisco de Assis nunca escreveu

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As Origens do Texto Atribuído a São Francisco de Assis
A Verdadeira história da Oração pela Paz

Egidio Picucci
Osservatore Romano

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio que eu leve amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança, Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado,
Compreender que ser compreendido,
Amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive
Para a Vida Eterna.

É excepcional a difusão da oração simples atribuída a São Francisco de Assis, conhecida em todo o mundo, graças, sobretudo, à sua espontaneidade e à sua referência às expectativas mais humanas. Traduzida em todas as línguas, foi e é recitada no âmbito de numerosíssimos encontros e por eminentes personalidades do mundo eclesiástico, literário e político. Tendo que fazer uma escolha, basta recordar que em 1975 ela foi recitada em Nairobi durante uma reunião do Conselho ecumênico das Igrejas; que em 1986 esteve no centro das orações dos participantes do encontro dos representantes de todas as religiões, organizado por João Paulo II em Assis; que em 1989 em Basiléia abriu o Congresso ecumênico europeu.

A oração não deixara de espantar Madre Teresa de Calcutá, que brevemente explicou sua importância, e convidou a recitá-la no dia em que, em Oslo, recebeu o prêmio Nobel da paz (1979), revelando que, em seu instituto, ela era rezada todos os dias, depois da comunhão; Helder Pessoa Câmara, o então Arcebispo de Olinda e Recife (Brasil), a incluiu nas "Páginas do Caminho para as comunidades abramíticas"; Margaret Thatcher recitou uma parte dela em 4 de Maio de 1979, dia da sua nomeação como primeiro ministro; o Bispo anglicano Desmond Tutu (Nobel pela paz em 1984), confessou que "ela fazia parte integrante" de sua devoção; Bill Clinton a inseriu no discurso de saudação a João Paulo II no aeroporto de Nova York em 1995, acrescentando com mal disfarçada altivez que "muitos americanos, católicos ou não, a tem em seu bolso, na bolsa ou em suas agendas".

O elenco poderia continuar e longamente, mas a nós interessa fazer conhecer somente um aspeto da longa história que circunda a oração, e isto é o papel que teve o "Osservatore Romano" ao fazê-la conhecer do grande público.

Em 1915, no dia seguinte da declaração da primeira guerra mundial [para a Itália - nota do tradutor], Bento XV compôs uma oração pela paz, traduzida em francês, inglês, alemão, espanhol, português, russo e polaco, convidando todos os católicos da Europa a recitá-la no domingo, 7 de Janeiro, no mesmo momento em que ele mesmo a teria rezado diante do altar de São Pedro, junto com os Cardeais e com a Cúria pontifícia.

"Na França - afirma Christian Renoux, docente de história na universidade de Orleans - o Governo se opôs a tal recitação, temendo que o Papa convidasse a rezar pela vitória do catolicíssimo império austro-húngaro. Confiscou, pois, todos os folhetos em que a oração fora impressa e censurou os boletins paroquiais que a reproduziam".
Algum tempo antes, o Marquês Stanislas de A. Rochethulon, presidente da associação anglo-francesa Souvenir Normand - que se qualificava como "obra de paz e de justiça ideal, inspirada no testamento de Guilherme, o Conquistador, considerado antepassado de todas as famílias reais da Europa, para fazer ressaltar o papel que tiveram a lei e o direito estabelecidos pelos conquistadores normandos" – tinha feito chegar ao Papa duas orações pela paz e um cântico dedicado a Nossa Senhora das Normandias. A primeira oração era uma invocação "à Nossa Senhora dos Normandos e aos seus santos e santas padroeiros"; a segunda, uma "bela oração a recitar durante a Missa", publicada por um certo abbé Bouquerel, redator do semanário católico "A Cruzx de Orne", retomada no número de Dezembro de 1912 do periódico "La Clochette", um revistinha católica de caráter devocional fundada em Outubro de 1901, e que se qualificava como "boletim da Liga da Santa Missa".

Era a atual Oração Simples - assim a chamou Giuseppe João Lanza del Vasto, e assim é conhecida na Itália - que apareceu anônima pela primeira vez na "La Clochette" ("A campainha"), termo claramente designativo da pequena campainha que se toca durante a celebração eucarística. A oração agradou seja ao Papa como ao Cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estato, mesmo porque o Marquês a tinha feito apresentar como "oração ao Sagrado Coração", devoção cara ao Papa, o qual, na oração pela paz de 1915, tinha feito várias vezes referência ao Sagrado Coração.
"A pedido do Papa (e do Cardeal Gasparri) - acrescenta Christian Renoux - a Secretaria de Estado enviou o texto ao 'Osservatore Romano' que a publicou na primeira página no dia 20 de Janeiro de 1916, traduzida em italiano, junto com uma breve informação explicativa, intitulada 'As orações do Souvenir Normand pela paz'. O redator, que fez algumas correções secundárias, não obstante tivesse escrito que a apresentava 'textualmente na sua tocante simplicidade', explicava: 'O Souvenir Normand fez chegar ao Santo Padre o texto de algumas orações pela paz. Entre elas nos agrada reportar particularmente aquela dirigida ao Sagrado Coração, inspirada no testamento de Guilherme, o Conquistador".

Foi o lançamento mundial da Oração Simples. No dia 28 de Janeiro sucessivo, "La Croix" reportou o artigo do quotidiano da Santa Sé, deixando inalterado seja o título seja as informações incompletas sobre a exata origem do texto. Por escrúpulo, o Marquês escreveu ao jornal para completar as informações, mas calando volutamente "La Clochette", a primeira publicação que a tinha reportado: ele queria apenas esclarecer que não tinha sido composta pelo Souvenir Normand. Passando por cima sobre as vicissitudes ligadas à famosa Oração (traduções, adaptações, títulos); sobre as intermináveis pesquizas de autor (até agora desconhecido); sobre o por que da atribuição a São Francisco, queremos sublinhar que a oração teve aquele sucesso mundial que desejava o Cardeal Gasparri em uma carta de 24 de Janeiro de 1916 ao Marquês Stanislas de A. Rochethulon, e desejado pelo Papa, conforme quanto se lê naquele número do jornal do Papa: "O Santo Padre agradou-se sumamente com esta comovente oração que seria de se desejar achasse um eco em todos os corações e fosse a expressão do sentimento universal".
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Entregar-se

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Várias vezes, Nosso Senhor já havia me dado conhecer o quanto era útil, para o progresso de uma alma desejosa de perfeição, entregar-se sem reserva à ação do Espírito Santo. Mas, nesta manhã, a divina Bondade dignou-se me agraciar com uma visão toda particular. Estava me preparando para começar minha meditação, quando ouvi o ressoar de vários sinos chamando os fiéis para assistir aos divinos Mistérios. Neste momento, desejei unir-me a todas as missas que estavam sendo celebradas e com este intuito, dirigi a minha intenção para que participasse de todas elas. Tive então uma visão geral de todo o universo católico e de uma profusão de altares nos quais se imolava, ao mesmo tempo, a adorável Vítima.

O Sangue do Cordeiro sem mancha corria abundante sobre cada um desses altares que me pareciam envoltos numa leve fumaça que subia para o céu. Minha alma era tomada e penetrada por um sentimento de amor e de gratidão à vista dessa tão abundante satisfação a nós oferecida por Nosso Senhor. Mas também surpreendia-me muito o fato de que o mundo inteiro não se achasse santificado em conseqüência. Perguntava-me como era possível que o Sacrifício da Cruz, oferecido uma só vez, tenha sido suficiente para salvar todas as almas e que, renovado tantas vezes, não bastasse para santificá-las todas. Eis a resposta que julgo ter ouvido:

- O Sacrifício é sem dúvida suficiente por si mesmo e o Sangue de Jesus Cristo mais que suficiente para a santificação de um milhão de mundos, mas às almas falta corresponder generosamente. Pois o grande meio para entrar na via da perfeição e da Santidade – é o de entregar-se ao nosso Bom Deus.

Mas que significa entregar-se? Percebo toda a extensão desta expressão "entregar-se", porém não posso explicitá-la. Sei apenas que é muito extensa e abrange o presente e o porvir.

Entregar-se é mais que se dedicar; é mais que se doar; é até maior que se abandonar a Deus. Entregar-se, finalmente, significa morrer a tudo e a si mesmo, não se preocupar mais com o EU a não ser para mantê-lo sempre orientado para Deus.

Entregar-se é ainda mais que não se procurar a si mesmo em nada, nem no espiritual, nem no corporal; quer dizer deixar de procurar a satisfação própria, mas unicamente o bel-prazer divino.

É preciso acrescentar que "entregar-se" significa, também, esse espírito de desapego que não se prende em nada, nem nas pessoas, nem nas coisas, nem no tempo, nem nos lugares. É aderir a tudo, submeter-se a tudo.

Mas, talvez se acredita que isso seja muito difícil de se conseguir. Desenganem-se, não existe nada mais fácil de se fazer e nada tão suave de se praticar. Tudo consiste em fazer uma só vez um ato generoso, dizendo com toda a sinceridade de sua alma: "Meu Deus, quero ser inteiramente seu (sua), queira aceitar minha oferenda". E tudo será dito.

Permanecer de agora em diante nesta disposição de alma e não recuar diante de nenhum dos pequenos sacrifícios que possam servir ao nosso progresso em virtude. Lembrar-se que se entregou.

Rogo a Nosso Senhor que forneça o entendimento desta expressão a todas as almas desejosas de Lhe agradar, inspirando-lhes um meio de santificação tão fácil. Oxalá fosse possível compreender de antemão toda a suavidade e toda a paz que se desfruta quando não se guarda reserva com nosso Bom Deus!

De que forma Ele se comunica com a alma que O procura com sinceridade e que soube entregar-se. Experimentem e vereis que lá é que se acha a felicidade procurada em vão alhures.

A alma entregue encontrou o Paraíso na Terra, pois ali goza esta paz suave que constitui em parte a felicidade dos eleitos.

Sta. Teresa Couderc
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A morte do mau sacerdote

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Padre Fábio de Melo

In Diálogo, St. Catarina de Siena (28.9.2).
Deus fala à St. Catarina de Siena.

Filha querida! Se grande é a dignidade do bom sacerdote, enorme é a baixeza do sacerdote mau, e cheia de trevas a sua morte. No momento de falecer, os demônios o acusam tremendamente e mostram-lhe sua figura que, como sabes, é horrível. O homem deveria tolerar qualquer sofrimento nesta vida para não o ver jamais! O remorso corrói o mau sacerdote moribundo com mais violência; a sensualidade - até então considerada como senhora - e também os prazeres desordenados, acusam-no. Ao tomar consciência de coisas que desconhecia, o mau sacerdote se perturba grandemente, pois vivera como um infiel. O egoísmo apagara-lhe a iluminação da fé. Agora o demônio aponta sua maldade, provocando-lhe o desespero.

Muito difícil esta batalha para o mau sacerdote moribundo, desarmado, sem o escudo da caridade. Qual amigo do diabo, de tudo se vê despojado: não possui a iluminação sobrenatural da fé, nem a ciência sagrada. Nada compreendera desta última, porque a soberba não lhe permitira penetrar em sua natureza íntima. Na grande luta final, nem sabe o que fazer. Não se alimentara de esperança; jamais confiara no sangue de Cristo, do qual fora distribuidor. Sua confiança repousava em si mesmo, nos cargos importantes, nos prazeres mundanos. Ó infeliz demônio encarnado, a quem eu tudo confiara com abundância! Na hora de me prestares contas, estás com as mãos vazias!

Para qualquer lado que se volte, o mau sacerdote só encontra repreensões na hora da morte, em uma grande confusão. As injustiças cometidas durante a vida acusam-no em sua consciência; resta-lhe apenas a coragem de implorar a justiça divina. Afirmo-te que grandes são a sua perturbação e vergonha; só um auxílio lhe resta: o costume de esperar no meu perdão. Tal costume no pecador havia sido, sem dúvida, um ato de presunção; não se pode dar o nome de confiança no perdão à atitude de quem peca por esperar ser perdoado. Isso é presunção. De qualquer modo, tal comportamento é levado em consideração, quando o pecador reconhece os próprios males antes da morte e se confessa. Nesse caso, a presunção também é esquecida, desaparece com o perdão. Mesmo para os pecadores, minha misericórdia sempre constitui um fiozinho de esperança; não fosse ela, cairiam no desespero e iriam com os demônios para a eterna condenação.

É bondade minha o fato de que os maus possam esperar no meu perdão. Deixo-lhes essa esperança para que, confiantes no perdão, deixem de pecar. Desejo que cresçam na caridade em consideração de minha generosidade. Infelizmente servem-se dela em sentido inverso: ofendem-me porque confiam no perdão. Assim mesmo eu os conservo vivos; quero que lhes fique um ponto de apoio no último instante, para que não se desesperem e não se condenem. Este pecado de desespero desagrada-me e prejudica os homens mais do que todos os outros males. É o mais prejudicial pelo seguinte: os demais vícios são cometidos pelo incentivo de algum prazer; deles a pessoa pode, portanto, arrepender-se e obter o perdão. No pecado de desespero o homem não é movido por fraqueza alguma. O ato de desesperar-se não inclui debilidade, mas somente intolerável dor. Quem desespera, despreza minha misericórdia e julga que seu pecado é maior que minha bondade. Quem faz tal pecado já não se arrepende, já não sente dor pela culpa. Poderá o responsável queixar-se do castigo recebido, mas não da ofensa cometida. Por essa razão são condenados.

Como vês, é o pecado do desespero que conduz alguém ao inferno, mas lá o homem sofrerá também por causa dos outros erros. Quando o pecador se arrepende das faltas passadas, é perdoado. Minha misericórdia é infinitamente maior que todos os pecados que um homem possa cometer. Entristece-me o fato de que alguém considere suas faltas maiores que meu perdão. Esse é o pecado que não será perdoado nem neste mundo, nem no outro (Mt XII, 32). Desagrada-me o ato de desespero de quem passou a vida no mal; gostaria que se apoiasse no meu perdão. Eis a razão por que permito aquele engano em que vivem, confiando em meu futuro perdão. Acostumados com tal esperança, dificilmente irão abandoná-la no momento da morte, diante das duras repreensões. Seria mais difícil, se não tivessem esse hábito.

Todas essas coisas são concedidas aos pecadores pela chama e abismo do meu imenso amor. Mas, devido ao egoísmo que é fonte de todos os males, abusam de mim; desconhecem minha caridade, transformam a confiança em presunção. Esta é, aliás, uma das repreensões que irão receber da própria consciência diante do demônio. Serão acusados porque tinham o dever de usar a vida e meu perdão para progredir no amor e nas demais virtudes; deviam passar o tempo na prática do bem. Mas na realidade, serviram-se do tempo e da minha misericórdia ofendendo-me desastrosamente.

Ó grande cego, enterraste a pedra preciosa e o talento (Mt XXV, 25) que eu colocara em tuas mãos para que os fizesses frutificar! Com muita presunção, recusaste cumprir o meu desejo. Enterraste-os no solo do egoísmo; agora colhes seu fruto mortal. Infeliz! Como é grande o castigo que recebes agora, no fim da vida. Conheces tuas culpas; o remorso já não dorme, como antes. Chamam-te os demônios e sabem que mereces a condenação. Desejosos de que não lhes escapes das mãos, provocam-te ao desespero, lançam-te à perturbação. Aspiram por que venhas a ter o que já possuem. Ó infeliz, tua dignidade sacerdotal mostra-se brilhante ante os teus olhos! Assim, envergonhado, reconhecerás como a mantiveste nas trevas. Os bens pertencentes à igreja ali estarão a recordar-te que és um ladrão, um devedor de coisas que pertenciam a ela e aos pobres. A consciência faz-te pensar no dinheiro gasto com prostitutas e na educação dos filhos, no enriquecimento de parentes e na gula, em ornamentação da casa, em vasos de prata, ao passo que era teu dever ser voluntariamente pobre. A consciência ainda recordar-te-á o ofício divino que deixaste de recitar sem medo de cometer pecado mortal; recordará como, ao recitá-lo com a boca, teu coração estava bem longe. Em forma de horrível demônio, ela mostrará os súditos pelos quais devias ter caridade e zelo, aos quais devias alimentar com a virtude, o bom exemplo, e corrigir com misericórdia e justiça. A ti, prelado, ela recordará prelaturas e curas de alma que erradamente confiaste sem olhar para quem e como davas. Não podias entregá-las motivado por discursos bajuladores e com a finalidade de agradar ou ganhar presentes. Ela far-te-á compreender que era preciso ter olhado as virtudes do candidato, considerar onde estava minha glorificação, quem poderia ser de maior utilidade à salvação dos homens. Por ter agido assim, serás repreendido. Por fim, para maior pena e confusão, passará diante de teu pensamento tudo o que não devias fazer e fizeste, tudo o que devias fazer e não fizeste.

Filha querida, as cores branco e preto destacam-se mais quando colocadas uma ao lado da outra. O mesmo acontece com estes infelizes sacerdotes moribundos. Na hora da morte, compreendem melhor os próprios males e virtudes. Ao sacerdote justo aparece claramente sua felicidade; ao pecador, a sua vida criminosa. Não é preciso que alguém lhes dê explicações. A própria consciência mostra os pecados cometidos e as virtudes que deveriam ter praticado. Queres saber por que o pecador se recorda também das virtudes? Porque colocando-se, lado a lado, vício e virtude, o conhecimento do bem realça a gravidade do mal e envergonha. Igualmente a virtude é esclarecida pelo mal e a pessoa sente maior dor ao ver que viveu distante do bem.

Em tal conhecimento da virtude e do vício, os sacerdotes maus percebem qual é a felicidade reservada aos virtuosos, bem como qual o castigo preparado para quem viveu nas trevas do pecado mortal. Propício tal conhecimento, não para induzir o homem ao desespero, mas a fim de que se conheça perfeitamente e se envergonhe de ter pecado. Essa vergonha e autoconhecimento querem levar o moribundo a dar reparação pelos seus pecados, aplacando minha justiça com o humilde pedido de perdão. Quanto ao sacerdote virtuoso, este esclarecimento final acresce a alegria de te vivido bem e de ter trilhado a mensagem de Cristo, não por bondade sua, mas minha. Leva-o a rejubilar-se em mim e, com tal visão, a atingir a meta da felicidade. (...).

É desta forma que o justo, após ter vivido na caridade, alegra-se, e o pecador sofre. Com a visão do demônio e as trevas, nada padece o justo; somente o pecado prejudica o homem. Sofrem e temem aqueles que viveram na impureza e outras degradações. Em si mesma a visão do diabo e das trevas não constituem motivo de desespero; é um sofrimento que urge o remorso, o temor. Como vês, minha filha, é muito diversa a agonia de uns e de outros, da mesma forma que são diferentes suas metas finais. Revelei-te a mínima parte, como que um nada em comparação com a realidade, seja dos castigos como da beatitude. Esforça-te por compreender a cegueira humana, especialmente dos maus sacerdotes. Dei-lhes tantas coisas, foram esclarecidos pela Escritura Sagrada! Sua confusão será maior. Durante a vida conheceram a Bíblia de um modo mais perfeito; por isso, na hora da morte terão mais consciência dos seus males. Maiores tormentos também receberão que os demais cristãos, da mesma forma como os bons sacerdotes obterão maior glória.

Acontece-lhes como para o cristão e o pagão que vão para o inferno. O cristão terá maiores sofrimentos, porque possuía a fé e a ela renunciou, ao passo que o pagão nunca a teve. Assim, os sacerdotes maus sofrerão mais que os simples cristãos, por causa do ministério de distribuir o sol no Santíssimo Sacramento. Se eles tivessem querido, discerniriam a verdade, pois possuíam a ciência sagrada. Por justiça padecem mais. Mas infelizmente os maus sacerdotes não o compreendem. Com um pouco de entendimento sobre a própria condição, evitariam tais desgraças. Viveriam no modo conveniente. Embora esteja o mundo todo corrompido, os sacerdotes são hoje piores que os leigos. Eles mancham a própria alma, corrompem os súditos, enfraquecem a santa Igreja. Empalidecem-na com seus defeitos, negam-lhe amor, gostam só de si mesmos. Da santa Igreja querem apenas desfrutar cargos e rendas, esquecidos do dever de procurar as almas. Suas vidas tornam os leigos desrespeitosos e desobedientes, muito embora tal atitude não se justifique pelos defeitos dos ministros.

Sumário e exortação (28.10)

Teria eu ainda muitos defeitos dos sacerdotes para contar-te, mas não quero ferir teus ouvidos.

(...)

Filha querida, quero convidar-te, e também os outros servidores meus, a que choreis sobre esses (sacerdotes) mortos. Permanecei na santa Igreja, alimentai-vos com o desejo santo e contínuas orações. Oferecei-as a mim em favor deles. Quero ser misericordioso para com o mundo. Não deixeis de fazê-lo! Nem por motivos de dificuldades, nem de comodidade; não desejo ver em vós reações de impaciência ou de exagerada alegria. Com humildade, aplicai-vos em dar-me honra, em salvar as almas, em reformar a santa Igreja. Será esse o sinal de que tu e os demais servidores realmente me amais.

Certa vez eu te manifestei o seguinte: "Quero que tu e os outros servidores sejais sempre ovelhas da santa Igreja, suportando adversidades até o momento da morte". Se fizerdes tal coisa, cumprirei os teus desejos.
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A morte do bom sacerdote

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São Giuseppe Cafasso

In Diálogo, St. Catarina de Siena (28.9.1).
Deus fala à St. Catarina de Siena.

Sabes que o sofrimento existe por causa da vontade; ninguém padeceria, se a vontade de todos fosse reta e estivesse em conformidade com a minha. Com isto não quero dizer que iriam desaparecer as dificuldades. É o sofrimento que não existiria, pois as contrariedades seriam voluntariamente aceitas por meu amor. As pessoas aceitariam-nas, por saber que são queridas por mim. O homem conformado à minha vontade é desapegado de si mesmo, vence o mundo, o demônio e a carne; ao chegar o momento da morte, seu falecimento acontece na paz. Como seus inimigos foram vencidos durante a vida, já renunciou a seus prazeres; a carne enfraquecida não se ergue para o acusar, uma vez que foi dominada pela mortificação, vigílias, oração humilde e contínua. Graças à renúncia ao pecado e apego à virtude, não sente mais tendências para o que é sensível e amor pelo corpo, atitudes essas que tornam a morte indesejável. Por um sentimento natural, o homem teme a morte; o justo supera esse sentimento, vence o medo natural mediante o desejo de alcançar a meta. Desaparece, pois, todo sofrimento que vem do apego natural ao corpo.

A consciência do homem justo que agoniza está tranquila; durante a vida ela montou boa guarda, dera o alarme quando os inimigos da alma queriam assaltar a cidade interior. Como o cachorro late à chegada dos inimigos e acorda os guardas, assim ela sempre advertia a razão. Esta última, em ação conjugada com o livre arbítrio, distinguia quem era o inimigo, quem não. Diante dos amigos - virtudes e santos desejos do coração - acolhia-os com atenções; quanto aos inimigos - vício e maus pensamentos - eram afastados com a espada do ódio e do amor. Dessa forma, na hora da morte a consciência não atormenta. O interior da pessoa constitui uma família feliz, tudo está em paz. É verdade que o homem humilde, que conhece o valor do tempo e das virtudes, acusa-se na hora da morte por não ter aproveitado melhor a própria vida. Mas tal atitude não causa aflição; é mesmo meritória. Leva a pessoa a concentrar-se e a considerar o sangue do Cordeiro imaculado e humilde. Naquele instante a alma não fica a pensar nas virtudes práticas; sabe que não pode confiar nelas, mas unicamente no sangue de Cristo, onde achou o perdão. Mas como a lembrança do sangue sempre a acompanhara, também naquele último instante nele se inebria e afoga.

Quanto aos demônios, não tendo em que acusar o justo, aproximam-se à procura de qualquer coisa. São muito feios e crêem atemorizar o justo por suas figuras. Como no justo não há pecado, a visão dos demônios não atemoriza. E eles, ao notar a alma mergulhada no sangue de Cristo, afastam-se atacam de longe, sem perturbar o homem. De fato, este último já começou a gozar da vida eterna. Pela fé, já contempla o bem infinito e eterno, que sou eu; pela esperança, não por méritos pessoais mas por dom gratuito, está seguro de atingir-me na virtude do sangue de Cristo; com a caridade, estende seus braços e abraça-me. Antes de chegar a mim, a alma já me possui. Imersa no sangue, atravessa a porta estreita que é Cristo e projeta-se em mim, pacífico mar. Completa é a união entre o mar, que sou eu, e aquela porta; eu e meu Filho somos uma só coisa. Que alegria sente o homem ao atingir a meta final! Alegra-se pela felicidade dos anjos, e, como passara a vida na caridade humana, participa agora da beatitude dos santos.

Esse é o prêmio de qualquer pessoa que tenha vivido santamente. Meus sacerdotes, que foram anjos na terra, gozarão muito mais. Já nesta vida fora maior seu conhecimento, maior o desejo de minha glória e de salvação da himanidade. Além da iluminação comum, possível a qualquer cristão que vive virtuosamente, meus ministros possuíram a luz da ciência *, pela qual conhecem meu Filho Jesus. Ora, quem mais conhece, mais ama; e quem mais ama, mais recebe. O mérito acompanha a caridade.

Poderás perguntar: "E uma pessoa que não possui a ciência sagrada, poderá atingir esse amor?" Respondo-te: sim, é possível atingi-lo. Mas, supondo que isso aconteça, será um caso especial, não a norma geral.

Além de tudo isso, pela sua própria dignidade sacerdotal, os ministros terão maior posição no céu, uma vez que na terra tiveram por função a conquista de homens para a glória. Embora todos vós tenhais a obrigação de amar a humanidade, aos sacerdotes é confiada a guarda do sangue e, ainda, o governo dos homens. Se cumprem com zelo e virtude essa função, terão maior prêmio que os demais.

Como é feliz o bom sacerdote ao chegar o momento da morte. Tendo sido o pregador e o defensor da fé nesta vida, terminou assimilando-a no fundo do próprio ser. Pela fé, ele conhece seu lugar junto a mim. Vivera sempre esperando na minha providência, desconfiado de si mesmo; não colocara sua esperança nos próprios conhecimentos, não amara desordenadamente pessoas ou coisas criadas. Vivera na pobreza. Alegremente confiara em mim, seu coração fora um vaso de amor. Com muita caridade anunciara meu nome aos homens, confirmando suas palavras com o exemplo de uma vida honesta e santa. Eleva-se, agora, num inefável ato de caridade e abraça-me; entrega-me a pedra preciosa da justiça, com que durante sua vida tratara os outros. Com discernimento cumprira o seu dever; com humildade rende-me o preito da justiça: glorifica-me, honra-me, reconhece que a mim deve a graça de ter vivido com a consciência pura. Pessoalmente, julga-se indigno de tão sublime dom. Sua consciência testemunha em meu favor e eu, por justiça, dou-lhe a coroa (2Tm IV, 8), adornada de virtudes.

Ó anjo da terra, feliz de ti que não foste ingrato ante os favores recebidos, nem negligente ou maldoso. Com zelo, iluminado, vigilaste sobre os teus súditos; pastor corajoso, seguiste a mensagem do pastor bondoso e verdadeiro, o doce Cristo Jesus, meu Filho unigênito. Imerso no sangue tu passaste (Jo X, 9) por ele juntamente com os súditos. Pelo ensino e bom exemplo conduziste muitos à vida eterna; outros, deixaste na terra no estado de graça! Filha querida, a presença dos demônios não perturba meus sacerdotes na hora da morte por causa da compreensão que têm de mim na fé e no amor. Eles estão isentos de pecado, por isso o negrume do diabo não os angustia, não os amedronta. Isentos do medo servil, acham-se no santo temor. Superam, pois, as ilusões diabólicas pela iluminação sobrenatural da fé e com a Sagrada Escritura. Já não padecem nenhuma obscuridade ou perturbação no espírito. Cheios de glória, embebidos no sangue, zelosos pela salvação alheia, inflamados de caridade entram pela porta do Verbo encarnado e adentram-se em mim (Pai eterno). Bondosamente os coloco em seus respectivos lugares, conforme o grau de amor com que até mim chegaram.

* Parece tratar-se da Teologia, estudada pelos sacerdotes.
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A Infalibilidade Papal

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A Infalibilidade do Supo Pontífice - Infalibilidade Papal - é exercida quando o Santo Padre, o Papa, pronuncia-se em "ex-cathedra", ou seja, oficialmente como o legítimo Sucessor de São Pedro (o primeiro Papa), como o Bispo de Roma e como o soberano da Igreja de Cristo.

São quatro as condições estabelecidas como dogma pelo Concílio Vaticano I (1870) para o exercício do carisma da Infalibilidade Papal:

1 - Que o Soberano Pontífice se pronuncie como sucessor de Pedro, usando os poderes das chaves, concedidas ao Apóstolo pelo próprio Cristo (Mt XVI, 19);
2 - Que se pronuncie sobre Fé e Moral;
3 - Que queira ensinar à Igreja inteira;
4 - Que defina uma questão, declarando o que é certo, e proibindo, com anátema, que se ensine a tese oposta.

Para exercer um ato infalivelmente, em qualquer documento ou forma de pronunciamento - seja numa encíclica ou num decreto especial, bula, constituição apostólica, etc. - o Papa precisa deixar claro que o faz nessas quatro condições acima citadas.


Assim, por exemplo, o discurso de Paulo VI na ONU, no qual ele declara que lá se pronunciava como doutor em humanidades, não é infalível, porque ele não se pronunciou como Papa.

Pelo contrário, na encíclica Veritatis Splendor, quando João Paulo II declarou que o núcleo da encíclica ele o ensinou, usando o poder de Pedro, e que doravante ninguém poderia dizer o oposto e continuar a se dizer católico, esse núcleo da encíclica foi ensinado (salvo melhor juízo do que o nosso, que não somos nem juristas nem teólogos), infalivelmente.

Nos concílios ecumênicos (ou seja, que se destina à toda a Igreja), só é infalível a decisão que o Papa declarar tal, estabelecendo um anátema contra quem defenda a tese oposta. No chamado "latrocínio de Éfeso", em 449, concílio presidido por São Flaviano, nenhuma das decisões conciliares foi aprovada pelo Papa, a não ser o chamado Tomo a Flaviano (carta enviada pelo papa São Leão Magno ao presidente do concílio, São Flaviano, condenando as heresias de Nestório e de Eutiques).

São Flaviano foi assassinado durante a assembléia ecumênica que, por isso, é chamada "o conciliábulo de Éfeso" ou "o Latrocínio de Éfeso".

Dom Paul Nau, em seu trabalho intitulado "Les encicliques, une source doctrinale", discute se nos documentos do magistério ordinário - documentos não ex cathedra - o Papa é infalível. E parece inclinar-se a favor da tese de que um ensinamento papal, mesmo não sendo ex cathedra, mas que se repete por um longo espaço de tempo, seria também infalível, porque Cristo prometeu assistir sua Igreja "todos os dias".

Outros há, que não aprovam essa tese, que seria um tanto vaga, pois que não se estabelece o que é um longo espaço de tempo.

Todos os Cocílios ecumênicos que foram declarados dogmáticos pelo Papa e concluíram lançando anátemas definidores de teses dogmáticas, são infalíveis nas decisões aprovadas como infalíveis pelo Papa.

O Concílio Vaticano II foi exceção única na História dos Concílios, pois que João XXIII, ao convocá-lo, e Paulo VI ao reconvocá-lo e ao encerrá-lo, declararam que ele era apenas pastoral, e que, por essa razão, não tinha valor dogmático.

Sendo meramente pastoral, ele pretendia dar apenas conselhos de orientação pastoral. É caso único na História. Por isso, o Vaticano II recusou lançar anátemas. Portanto, nada definiu dogmaticamente.

O Cardeal Ratzinger fez vários pronunciamentos explicando exatamente isso.

Muitos modernistas e progressistas, abusando da ignorância religiosa de nossos dias, e jogando com o termo "dogmático", pretendem que o Vaticano II é infalível, porque promulgou Constituções "dogmáticas", como, por exemplo, a Lumen Gentium.

Ora, o tema da Lumen Gentium é dogmático, isto é, relativo ao dogma, mas o tema não foi tratado nela dogmaticamente. Portanto, essa Constituição não é dogmática, nem infalível. Assim também, este artigo tem um tema dogmático (trata-se, no assunto, dos dogmas), mas ele de maneira alguma é dogmático.

 Cátedra de São Pedro

Consulta: "O que é ser católico?", Prof. Orlando Fedeli.
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Abade Suger de Saint-Denis: não poupar arte nem riqueza no culto sagrado

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O Abade Suger (1081-1151) foi abade de Saint-Denis (França), desde 1122 até sua morte.
Hábil diplomata, foi conselheiro de Luís VI e de Luís VII e Regente durante a Segunda Cruzada. Foi chamado de "pai da monarquia francesa".
Suger formulou uma justificação filosófica para a vida e a arte, notadamente para suas realizações arquitetônicas. Compartilhando o sentir medieval, ele concebia os monumentos como obras de teologia.



"No que concerne à beleza dos vasos sagrados, nós acreditamos, que devemos esculpi-los primorosamente, com uma nobreza externa que corresponda à dignidade com a qual nós os manipulamos no Santo Sacrifício da Missa.
Pois, em todas as coisas sem exceção, seja pela matéria ou pelo espírito, nós devemos servir o Redentor o mais perfeitamente possível.
E é por isso que nada será suficientemente precioso, nem suficientemente belo, nem suficientemente esplêndido para conter as Sagradas Espécies".

"No Antigo Testamento, os judeus empregavam vasos e utensílios de ouro para recolher o sangue dos bodes, veados e vacas sacrificadas.
Os cristãos não poderiam ornar com pedras preciosas os cálices de ouro que contêm o sangue de Cristo?
A beleza da casa de Deus deve, com maior razão, dar aos fiéis como que um antegosto da beleza do Céu.
A visão da beleza multicolor das pérolas, com frequência, me liberou das preocupações da vida exterior elevando minha alma pelo deleite dos esplendores sensíveis até a consideração das virtudes diversas de que elas são o símbolo.
Esta visão me deu a ilusão de me encontrar, por assim dizer, numa terra estrangeira que de maneira alguma era a terra de lama deste baixo mundo, mas ainda não era a pura região do Céu.
Assim, parece-me que por meio do regozijo com a beleza material, nós podemos, com a ajuda de Deus, sentirmos transportados, por via anagógica (elevação da alma na contemplação das coisas divinas, êxtase, arrebatamento, enlevo), até a fruição espiritual da beleza suprema".

(Apud Edgar de Bruyne, "Le conflit des esthétiques", Albin Michel, Paris, 1998, p. 143)
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